Opa pessoal, tudo certo? Para iniciar a semana, apresentamos a nova seção desse admirável blógue: 5contra1. Cinco perguntas para alguma figura bacana, conversando coisas interessantes e trocando experiências.

Pra começar, a excelentíssima Paula Bulkool Arantes, vulgo “pakoola”, trocou ideias com a gente diretamente da Itália. A Paula tem 28 anos, é formada em Design Gráfico (UFSC) e atualmente trabalha com animação na cidade de Turim. Dá uma olhada nesse papo e deixe seu comentário e também suas sugestões, valeu?

5contra1, estrelando Paula Bulkool!

Cafundó: Como surgiu a oportunidade de estudar e trabalhar fora do Brasil?

Paula: No meu caso foi a vontade que fez a oportunidade, eu tinha o desejo de experimentar uma vida fora do Brasil. O desejo de estar na Europa e fazer uma pós-graduação, um master ou apenas um curso na área da animação sempre foi um plano antigo, o que fez com que eu tentasse muitas bolsas de estudos em fundações e escolas diferentes, a maioria na Espanha mas nenhuma deu 100% certo. Surgiu a ideia de tentar algo na Itália, então busquei na internet por palavras-chave como animazione, corso, master, borsa, cartoni animati, e Turim começou a aparecer nas respostas. Então optei pelo Istituto Europeo di Design, que estava oferecendo um curso muito interessante sobre técnicas de animação: 1 ano de curso com possibilidade de bolsa completa baseada em mérito (portfólio, currículo e motivação), incluindo um estágio obrigatório nos 3 últimos meses dentro da estrutura de uma empresa do ramo de animação. Eu achei isso o máximo, já que inclusive a experiência profissional na área seria garantida.

C: Quais são as grandes diferenças entre o mercado de animação do Brasil e da Itália?

P: Talvez esse mercado aqui na Itália seja um pouco diferente não apenas do Brasil mas de muitos outros países, pois aqui a industria da animação é gerenciada (para não dizer “dominada”) pela Rai (a TV estatal italiana). Ela (Rai) financia os grandes projetos e o problema disso é que esse financiamento é uma verdadeira “montanha-russa”. O impacto direto disso no mercado é que as empresas de animação simplesmente quebram sem o financiamento da Rai, principalmente se elas não tem outras fontes ou não trabalham com outros projetos. A Itália trabalha muito com outros países, com a França, Alemanha e principalmente com a China. Nessa cooperação, por exemplo, acontece muito do profissional de animação ser chamado para participar de projetos e não para trabalhar em empresas, por exemplo, cinco animadores italianos vão morar 1 ano na Alemanha para participar da produção de um longa-metragem tal.. e vice-versa. Mas também assim como o Brasil existe o financiamento do governo, seja europeu, nacional, regional ou municipal, para projetos muitas vezes culturais ou educativos. Existem as outras áreas que pelo menos na Itália são de menor porte como a publicidade, jogos, web, multimídia…e acho que neste ramo funcionam parecido ao Brasil.

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"pakoola", capiche?

C: E a remuneração para os profissionais é muito diferente do Brasil?

P: Bom, esse é um tema novo pra mim já que (pasmem!) eu ainda não fui remunerada para nada! (o que eu obtive foram bolsas, ou seja, nenhum gasto com estudos, eventos e alimentação). Eu acho isso um problema muito sério aqui na Itália, não só pra mim que sou estrangeira. A questão começa quando uma empresa contrata um estagiário não-remunerado, fixa um período de estagio (o meu foi 2 meses, mas pode ser 3 ou até 6 meses) e com a desculpa de que ele está aprendendo e tem um seguro da empresa ou da escola, os empresários acham que já está bom demais. Mesmo assim existe atração pelo estágio e sempre existe a chance de mostrar o quão bom você é.

A remuneração normal para um profissional que está começando fica em torno de mil euros. Esse valor não equivale à mil reais, é um pouco mais, não apenas por causa da conversão mas também pelo custo de vida. Aqui em Torino um jovem pode viver muito tranquilamente ganhando mil euros, o que eu acho que no Brasil com mil reais hoje em dia já fica meio difícil. Digo viver bem no sentido de pagar o aluguel, se alimentar numa boa e ter aquela grana básica para lazer e viagens. Essa foi uma das coisas que sempre me atraiu na Europa, se vive bem ou pelo menos dignamente com qualquer tipo de salário, em qualquer profissão, uma vez que você consegue obter o seu espaço no mercado de trabalho.

C: Conte um pouco para o pessoal sobre os estudos, professores e como acontece a educação voltada ao design em terras italianas.

P: Cabe aqui fazer um comentário sobre o perfil do animador na Itália. Aqui, a maioria dos animadores estudou na Academia de Bellas Artes ou cursou uma escola privada e muito cara, como o IED, ou até mesmo só fizeram um “liceo artístico” que seria o equivalente ao segundo grau brasileiro, porém voltado ao mundo das artes. Nas universidades italianas não existem cursos de Design, aqui as instituições são bem clássicas e conservadoras, não há tanto espaço para inovação. Outro fator que diferencia muito o jovem aqui é que ele entra mais tarde na universidade em relação aos brasileiros, e sai tarde também, geralmente formam-se com 26 ou 27 anos.

Aqui eu senti uma espécie de “preguiça” da parte dos professores, que geralmente introduzem um tema bem “migué” nas aulas. Depois é passada uma tarefa, um trabalho ou projeto e durante todas as aulas subseqüentes o professor questiona os alunos de modo aleatório, pedindo explicações sobre cada projeto. E é isso aí! No final você entrega o trabalho ou faz uma prova e obtém a nota naquela matéria. Não digo que seja uma regra, mas o que me deixou mais perplexa foi todos acharem isso uma coisa normal.

Os profissionais de animação aqui da região estão muito ligados e se conhecem, sempre que há também algum tipo de evento com a presença de professores, alunos, profissionais. De certa forma existe uma espécie de networking que acredito ser bem positiva.

C: Para finalizar, que dicas você deixa para aqueles que estiverem interessados em estudar ou trabalhar em outro país?

P: A vontade conta muito. Também a paciência para procurar a coisa certa. Aí entra um pouco de intuição e talvez de sorte (ou destino?), mas no meu caso as coisas foram e ainda vão se encaixando e me surpreendendo. Outra coisa importante é a paciência e persistência. Saber as regras, saber as leis, pesquisar sobre as coisas, entender como funcionam, saber línguas, se inserir na cultura. Fazer amigos locais, entrar na vida do país, ler os jornais, freqüentar eventos da área, e por mais que seja difícil, manter uma boa relação com aqueles que você encontrar pelo caminho.

9 Comentário(s)

  1. Fabian - 22 de fevereiro de 2010

    muito bacana a entrevista.. já q tbm desejo muito tentar uma vida fora do Brasil..
    é motivador saber q outras pessoas conseguiram esse objetivo..
    valeu john !!!

    Responder
  2. Thomaz - 22 de fevereiro de 2010

    Bacana mesmo, também me motivou mais a trabalhar fora!

    Responder
  3. paula - 22 de fevereiro de 2010

    cafundò.. graaazie pela oportunidade.. ;-)
    a Itàlia nào è necessariamente o melhor paìs para estudar/trabalhar com animaçào, mas pode ser um òtimo começo, eu estou aqui por outros motivos tbm.. mas è muito gratificante a experiència de viver a vida por aqui e acompanhar o funcionamento dessa àrea profissional aqui “fora”..
    beijao a todos! ;-)
    “in bocca al lupo” !

    Responder
  4. Caxias - 22 de fevereiro de 2010

    boa, paula
    grande entrevista :D

    Espero poder postar algo que você fez aqui no blog, futuramente.

    Responder
  5. Philippe - 22 de fevereiro de 2010

    Muito boa entrevista

    tb fiqei curioso pra fver algum trampo dela

    Responder
  6. Guto - 22 de fevereiro de 2010

    Legal a iniciativa das entrevistas! Mais uma dentro hein! E Paulinha ragazza tah podendo hein

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  7. Guilherme Simões - 26 de fevereiro de 2010

    Fantástica a idéia das entrevistas, principalmente para tirar muitos mitos que existem na área do design. Quanto a entrevista da Paulinha, achei muito legal a visão dela extremamente “pé-no-chão” com relação a realidade da vida na Europa, e principalmente com relação ao trabalho fora. Acredito que a iniciativa e a coragem de dar as caras em outro país é sempre digna de respeito, principalmente para nós que vivemos em um país relativamente periférico. Parabéns!

    Responder
  8. Rafael -Tevez - 3 de março de 2010

    É pessoal sempre inovando e trazendo coisas novas para gente.
    Embora não comente muito sempre acompanho o trabalho de vocês.
    Parabéns Paula e e ao pessoal do Cafundó…
    Deixo a dica para vocês além da Paulo temos o Rodrigo Soliz na Itália que tbm está na área de Design.
    Abraço a todos e saudades
    Rafa- Tevez

    Responder
  9. Cafundó Estúdio Criativo » Blog Archive » 5 contra 1, estrelando Eduardo “Cuducos” - 8 de março de 2010

    [...] Semana nova, post novo. Essa semana voltamos com a segunda edição do 5 contra 1, que teve sua estréia com a Paulinha, falando diretamente da sua experiência com animação direto da Itália. Se você não leu ainda, clica aqui. [...]

    Responder

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